DC DANTECultural - Colégio Dante Alighieri
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DC
DANTECultural
Publicação do
Colégio Dante Alighieri
Ano XVI - Número 42 - maio de 2020
ISSN 1980-637X
CADA OLHAR,
UMA HISTÓRIA
OGNI SGUARDO, UNA STORIA
Os registros de fotógrafos ítalo-brasileiros
(como Emidio Luisi, que hoje se debruça
sobre o tema da imigração italiana)
enriquecem a nossa memória iconográfica
há mais de um século
Gli scatti di fotografi italo-brasiliani
(come Emidio Luisi, che oggi si
concentra sul tema dell’immigrazione
italiana) arricchiscono la nostra memoria
iconografica da oltre un secolo{EDITORIAL}
DC
DANTECultural
(ISSN 1980-637X)
CARTA AO
LEITOR
é uma publicação do
C olégio Dante A lighieri
Alameda J aú, 1061 S ão Paulo-SP
Fone: (11) 3179-4400
www . colegiodante . com . br
Traduzione della lettera al lettore a pagina 65
José Luiz Farina
Presidente
Francisco Parente Júnior Há muitas formas de contar histórias. Capturar imagens é uma delas e, nesta edição,
Diretor-Secretário
dedicamos a nossa matéria de Capa à fotografia produzida por italianos e descendentes
Paulo Francisco Savoldi
2º Diretor-Secretário que vieram viver no Brasil. Emidio Luisi é uma referência da fotografia de imigração,
João Ranieri Neto temática que o levou a investigar sua própria história – ele nasceu na região da
Diretor Financeiro Campanha e se mudou para o Brasil aos 7 anos. Emidio clicou imigrantes italianos de
Milena Montini
bairros como o Bixiga, Barra Funda, Brás, Mooca e Lapa, e sua obra rendeu livros e
2ª Diretora Financeira
Flavia Gomes Ribeiro Piovacari exposições que, explorando conceitos como partida, regresso, memória e reencontro,
Diretora Adjunta integram Brasil e Itália. A reportagem traz, ainda, outros nomes da fotografia ítalo-
Mario Eduardo Barra brasileira, como o de Gioconda Rizzo, mulher pioneira que no início do século XX já
Diretor Adjunto
produzia retratos; e Vincenzo Pastore, que deixou como principal legado cenas de uma
Salvador Pastore Neto
Diretor Adjunto São Paulo das ruas, com feirantes, quituteiras, engraxates e desvalidos invisibilizados
Sérgio Famá D’Antino pela sociedade.
Diretor Adjunto
A temática da fotografia e da italianidade reaparece algumas páginas adiante, no
Valdenice Minatel Melo de Cerqueira
Diretora-Geral Educacional Ensaio Fotográfico: nosso colaborador Arthur Fujii retratou rostos de pessoas que
têm em suas origens as raízes italianas misturadas às japonesas, alemãs, libanesas,
africanas, indígenas.
Publisher: F ernando H omem de Montes
Editora: Marcella Chartier Na seção Gastronomia, uma casa de pratos italianos descomplicados, executados
( jornalista responsável - MTb: 50.858) pelo chef Benny Novak: a Tappo Trattoria — que segue atendendo pelo delivery neste
Projeto Gráfico: momento de isolamento social. A Vinheria Percussi, da chef e ex-aluna Silvia Percussi,
G rappa Marketing Editorial
também vem entregando seus pratos em casa. Nossa colaboradora da seção Mesa
Revisão: C amilla de Rezende
Consciente traz, nesta edição, um tema importante: a menopausa. Silvia reúne dicas
Diagramação: Simone Alves Machado
para amenizar os desconfortos dessa fase que, claro, passam pela comida.
Versão em italiano: Mayara Neto/Bruno Vianello
Revisão do italiano : L uciana Duarte Baraldi Na seção Medicina, especial desta edição, aproveitamos a visita do cardiologista Marco
Comercial: G rappa Marketing Editorial/ Bobbio, secretário-geral da Slow Medicine, para uma entrevista sobre a organização e
juliano @ grappa . com . br / tel .: (11) 4837-5788 seus princípios. Outra boa conversa, publicada na seção Entrevista, foi com a ex-aluna,
COLABORADORES: cicloativista e comunicadora Renata Falzoni, que estudou no Dante durante 13 anos
A rthur Fujii , Bárbara Monteiro, Camila Rolli
C onti , D ebora Pivotto, F red D i G iacomo, João e compartilhou conosco lembranças divertidas desse período. A DC 42 traz, ainda, o
M ontenegro, L aura F olgueira, L uisa A lcantara e Perfil do spalla da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp), Emmanuele
Silva , Luisa Destri, Sérgio Zacchi, Silvia Percussi, Baldini, italiano radicado no Brasil apaixonado pela música desde menino.
V aldenice M inatel Melo de Cerqueira.
Tiragem: Edição digital No Papo Aberto, a professora Valdenice Minatel M. de Cerqueira, diretora-geral
E nvie suas sugestões e críticas para educacional do Dante, entrevista Maria Elizabeth Bianconcini de Almeida, especialista
dantecultural @ cda . colegiodante . com . br em educação e tecnologias, formação de professores, web currículo, cultura digital e
C apa: S érgio Zacchi educação, e narrativa digital.
As declarações de nossos entrevistados não
refletem , necessariamente , a opinião do C olégio . Boa leitura!
FERNANDO HOMEM DE MONTES
PUBLISHER
MAIO 2020 • 3PERFIL
CAPA O músico italiano radicado no
O legado e a trajetória Brasil Emmanuele Baldini, spalla
de fotógrafos e fotógrafas da Orquestra Sinfônica do Estado
ítalo-brasileiros que de São Paulo (Osesp)
eternizaram cenas de 24
ruas paulistanas e casas
PROFILO
cearenses, retratos Emmanuele Baldini, musicista italiano radicato in
femininos e a própria Brasile e spalla dell’Orquestra Sinfônica do Estado de
São Paulo (Osesp)
história da imigração 24
italiana
08
COPERTINA
L’eredità e la storia dei fotografi e
fotografe italo-brasiliani che hanno Capa/08
eternato scene delle vie di San Paolo e Copertina/08
delle case di Ceará, ritratti femminili e la
storia stessa dell’immigrazione italiana Perfil/24
08 Profilo/24
Cultura/26
ENSAIO FOTOGRÁFICO Cultura/26
A diversidade de raízes nos rostos de Ensaio Fotográfico/32
ARTE(6), COMIDA(38) e HISTÓRIAS(46) brasileiros e brasileiras descendentes de
imigrantes italianos
Servizio fotografico/32
ARTE(6), CIBO(38) e STORIE(46) 32
SERVIZIO FOTOGRAFICO
Gastronomia/40
Gastronomia/40
La diversità delle radici sui volti dei brasiliani e brasiliane
discendenti degli immigrati italiani Mesa Consciente/44
32 Tavola Consapevole/44
Entrevista/48
Intervista/48
Espaço Aberto/56
Spazio Aperto/56
Medicina/58
Medicina/58
Centro de Memória/61
Centro della Memoria/61
Papo Aberto/62
Parliamoci chiaro/62
4 • Revista DANTECultural MAIO 2020 • 5Emidio Luisi
ARTE
Capa/08
Perfil/24
Cultura/26
Imagem do livro Ballet Stagium,
Ensaio Fotográfico/32
do fotógrafo Emidio Luisi
Immagine del libro Ballet Stagium,
del fotografo Emidio Luisi
Copertina/08
Profilo/24
Cultura/26
Servizio Fotografico/32
6 • Revista DANTECultural MAIO 2020 • 7{CAPA/COPERTINA}
RETRATOS
ÍTALO-BRASILEIROS
Por Luisa Alcantara e Silva
Olhares de fotógrafos de origem italiana que
compõem os registros de nossa história desde o
início do século XX
RITRATTI ITALO-BRASILIANI
Sguardi di fotografi di origine italiana che
compongono i registri della nostra storia sin
dall’inizio del XX secolo
Traduzione dell’articolo a pagina 66
Emidio Luisi
Capa do livro Italia Mia!, a ex-freira italiana
chamada Dorina foi clicada no momento
em que Emidio perguntou se ela acreditava
em Deus
Copertina del libro Italia mia!, l’ex-suora italiana
Dorina fu cliccata nel momento in cui Emidio le
chiese se credeva in Dio
8 • Revista DANTECultural MAIO 2020 • 9{CAPA}
Emidio Luisi
A fotografia provoca diversas sensações. e modesto das ruas paulistanas naquele
Pode comover, arrebatar, incomodar, tempo em que isso não era preocupação
enternecer. Mas, para além de tudo isso, ela de ninguém?”. A resposta, ele dá logo a
conta uma história, a partir de um ponto de seguir: “Na verdade, não nos interessam os
vista: o de quem está por trás da câmera reais motivos que levaram Pastore a fazer
em um determinado espaço e tempo. E esse seus instantâneos; o que nos importa é que
olhar é guiado por um conjunto de fatores estas fotos nos mostram São Paulo sendo
e motivações. “Quando você está em outro vivida e nos levam a pensar que, sem elas,
lugar, com pessoas de uma cultura diferente continuaríamos sabendo do dia a dia das
da sua, seus sentidos ficam mais aguçados, ruas somente por ouvir dizer... Só uma das
você tem mais curiosidade”, afirma João fotos dele vale por várias páginas de velhos
Kulcsar, professor do curso de graduação cronistas de nosso cotidiano”.
em fotografia do Centro Universitário No caso dos fotógrafos italianos ou ítalo-
Senac, sobre o olhar de quem chega de brasileiros que trabalharam no Brasil, houve
outra realidade. “Os fotógrafos de fora do quem mostrasse essa São Paulo cotidiana
Brasil vinham, e vêm, com outro olhar. Eles desconhecida das classes mais abastadas,
enriquecem os registros do nosso país.” a cidade fora dos casarões e longe da
Em 1997, o Instituto Moreira Salles (IMS) riqueza, como fez Pastore. Houve também
organizou a mostra São Paulo de Vincenzo quem inovasse no enquadramento para
Pastore, sobre um dos mais importantes a sua época, quem registrasse problemas
fotógrafos da capital paulista no início do sociais de outras regiões do país, e há
século XX, que era italiano, vindo da região ainda quem faça, como imigrante italiano,
da Puglia. No livro de apresentação da um retrato da própria imigração. A seguir,
exposição, o arquiteto e historiador Carlos conheça o trabalho de quatro profissionais
A. C. Lemos questiona: “Por que Pastore de origem italiana que fizeram de seus
obstinou-se em fotografar o povo simples cliques registros de épocas e culturas.
Do início da carreira, quando
Emidio Luisi retratava cenas do
teatro paulistano (imagem de uma
peça dirigida por Antunes Filho)
Scatto dell’inizio della carriera, quando
Emidio Luisi ritraeva scene del teatro
di San Paolo (immagine di un’opera
teatrale diretta da Antunes Filho)
10 • Revista DANTECultural MAIO 2020 • 11{CAPA}
UMA PÁTRIA SÓ
Vivendo em São Paulo desde os 7 anos,
o fotógrafo ítalo-brasileiro Emidio Luisi se
debruça sobre o tema da imigração Emidio Luisi
Quando tinha cerca de 10 anos, o então um trabalho muito legal com ele no bairro do
garoto Emidio Luisi recebeu uma carta de uma Bixiga e, depois que ele foi embora, continuei
tia da Itália perguntando o que ele gostaria de interessado no tema”, conta Emidio. Em cada
ganhar de presente. Sem saber por quê, ele casa em que entrava, ele se lembrava de sua
respondeu: “uma câmera fotográfica”. Era o infância em Sacco, pequena comuna italiana na
final da década de 1950 e as encomendas região da Campanha, em Salerno. “Então, minhas
demoravam para vir da Itália ao Brasil, mas, lembranças começaram a ser despertadas ali, ao
alguns meses depois, o pacote chegou. Emidio ver o semelhante, e percebi que nunca tinha me
abriu aquela caixa impressionado com a interessado muito pela minha história”, afirma.
máquina, que tinha até flash. “Aquele presente A parceria com Spini teve uma boa repercussão
me acompanhou por muitos anos”, lembra-se e Emidio começou, sem nenhum compromisso,
o fotógrafo ítalo-brasileiro, hoje com 71 anos. a fotografar outros bairros de imigrantes na
Durante sua adolescência, usou a câmera para cidade de São Paulo. Partiu para os outros mais
registrar eventos como os desfiles de fanfarra e tradicionais: Barra Funda, Brás e Mooca. Clicou,
os campeonatos esportivos em sua escola, em ainda, os imigrantes da Lapa, mais especificamente
São Paulo. da região da Vila Romana, onde seu trabalho de
Na hora de prestar vestibular, também sem pesquisa o levou a uma conclusão: “O bairro não
saber muito por quê, Emidio escolheu o curso de é tão conhecido pela questão da imigração quanto
arquitetura. Mas o cursinho era no Bixiga, mesmo os outros porque os italianos que foram para lá
bairro em que seu irmão mais velho vivia e não trouxeram uma santa para a comunidade,
mantinha um ateliê, e isso atrapalhou um pouco o que agregava muito os imigrantes, que se
os planos da faculdade. “Eu ficava mais vendo reuniam em torno da santa”, explica. É o caso
ele trabalhar do que nas aulas, e acabei não de festas como a Nossa Senhora Achiropita, no
entrando na faculdade de arquitetura.” Escolheu Bixiga, e a de San Gennaro, na Mooca. “Não é
seu plano B: como sempre gostou de números, que os imigrantes da Vila Romana fossem menos
prestou matemática. E entrou. Durante quase 15 religiosos. Acho apenas que não conseguiram ter
anos após formado, lecionou a disciplina, mas o uma unidade… O Bixiga, por exemplo, começou
contato com o trabalho do irmão lhe interessava com os calabreses; a Mooca, com napolitanos; já
cada vez mais. No fim dos anos 1960, Pietro na Vila Romana tudo era mais misturado.”
Luisi estava produzindo cenários e figurinos Emidio foi fotografando os bairros italianos de
de peças apresentadas nos teatros paulistanos, São Paulo e, depois de 15 anos de pesquisa (alguns
e Emidio acabava o acompanhando, com sua tendo trabalhado como fotojornalista de revistas
câmera nas mãos – já não era mais aquela dada como Veja), em 1997, lançou seu primeiro livro,
pela tia. Foi assim que ele começou sua carreira Ue’Paesà. “O título, que em português significa
como fotógrafo e, hoje, tem cliques publicados ‘Oi, conterrâneo’, faz referência à forma como os
em importantes livros como Ballet Stagium, imigrantes se cumprimentavam”, diz o fotógrafo.
Imagens do Teatro Paulista e Imagens da Dança Mais tarde, em 2010, ele publicou outro livro,
em São Paulo. Paesani, com imagens de imigrantes não só de São
Mas foi como assistente do fotógrafo Sandro Paulo, mas de outros estados em que os imigrantes
Spini que ele entrou em contato com outra italianos se fixaram, como Paraná, Santa Catarina Kazuo Ohno, dançarino
temática: a fotografia de imigração. “Até pela e Rio Grande do Sul. Dois anos depois, o livro, e fotógrafo japonês
que além de fotos de Emidio tem textos de Kazuo Ohno, ballerino e
facilidade do idioma, acabei desenvolvendo fotografo giapponese
12 • Revista DANTECultural MAIO 2020 • 13{CAPA}
Do livro Ballet Stagium,
Emidio Luisi
também do início da
carreira de Emidio
Dal libro Ballet Stagium,
un’altro scatto dall’inizio della
carriera di Emidio{CAPA}
A fotografia de
Sergio Zacchi
imigração é destaque
na obra de Emidio.
imóvel, por exemplo, era um espaço de 25 metros
quadrados, e não do tamanho de um quarteirão,
Cronista das ruas
Vincenzo Pastore deixou importantes registros
Em cada casa em como se lembrava. da São Paulo do começo do século XX
que entrava quando Outro momento marcante daquele primeiro
começou a fazer Nascido na comuna de Casamassima, no sul tipos e costumes das ruas de uma cidade ainda
imagens de imigrantes retorno foi quando um primo lhe contou que havia da Itália, Vincenzo Pastore veio ao Brasil pela pacata que pouco tempo depois seria desfigurada
no bairro do Bixiga, uma senhora que era a única moradora de uma primeira vez em 1884. Viveu por um ano em São pelo desenvolvimento econômico, com flagrantes
ele se lembrava de sua cidadezinha mais acima da montanha – Sacco
infância em Sacco,
Paulo, voltou à Itália e, em 1899, retornou à capital de personagens marginais e trabalhadores de rua
fica no sopé dela. No primeiro dia, Emidio subiu paulista. Montou seu estúdio fotográfico na rua da
pequena comuna como jornaleiros, feirantes e engraxates”.
italiana na região da até a comuna de Roscigno Vecchia sem a câmera, Assembleia, na região central. Nele, trabalhava “Pouco lhe importava o espetáculo da elite
Campanha, em Salerno pois sabia que não poderia espantar a moradora com sua mulher, Elvira Pastore, responsável reunida na confeitaria Castelões ou nos salões do
La fotografia daquele local quase fantasma. No segundo dia, ele pelo laboratório. Ficou conhecido por fazer os
sull’immigrazione è un café O Ponto, tão frequentados pelos homens de
punto centrale nell’opera
trocou um olhar com a senhora. “Isso fez com que chamados “retratos mimosos”, com moldura posse e pelas pessoas importantes”, escreveu o
di Emidio. Ogni casa in eu fosse me aproximando dela, mas sem assustá- especial e detalhes como flores e arabescos.
cui entrava quando iniziò professor e crítico literário Antonio Arnoni Prado Largo da Sé, atualmente
la”, conta Emidio. No terceiro dia, sua última Mas sua importância se dá especialmente pelos
a fare foto di immigrati no livro Na rua – Vincenzo Pastore, do IMS. ocupado pela praça da
nel quartiere di Bixiga gli oportunidade, pois iria voltar ao Brasil, o fotógrafo ensaios do cotidiano que fez de São Paulo no início Sé (1912)
ricordava la sua infanzia a
Segundo Prado, Pastore conseguia flanar pela
pegou sua máquina digital e foi até ela. “Queria do século XX. O Instituto Moreira Salles descreve Largo da Sé, dove
Sacco, un piccolo comune cidade por ter uma câmera mais leve. “Italiano attualmente si trova la
italiano della Campania, in trazer a coisa do encantamento quando a pessoa sua obra como “um valioso painel documental de anônimo perdido na Pauliceia, as agruras da vida Praça da Sé (1912)
provincia di Salerno se vê na imagem.” A estratégia deu certo e Emidio
conseguiu ganhar a credibilidade de Dorina, uma
Vincenzo Pastore /Acervo Instituto Moreira Salles
ex-freira que abandonou o hábito e decidiu ir
morar com os cachorros. O clique, escolhido como
capa do livro Italia Mia!, foi feito no momento em
Wladimir Catanzaro, ganhou uma exposição no que ele pergunta se ela acreditava em Deus – uma
Sesc Pinheiros. imagem de Dorina olhando para cima, reflexiva.
O próximo livro veio em 2018, após Emidio “ter “Eu achei que ela se abriu para mim, mas, depois
uma luz”. “Eu estava escaneando fotos que havia percebi, ela que me abriu. Abriu meu olhar”,
feito da Itália desde que voltei para lá, e percebi revela Emidio, que, com Dorina, aprendeu uma
que fazia 30 anos”, recorda-se. Foi em 1988 que importante lição: as pessoas entregam a alma
Emidio revisitou sua terra natal pela primeira vez – ao fotógrafo quando passam a acreditar nele.
sua mulher ia visitar a família e ele, que estava em “Essa foto me ensinou sobre ter um controle da
uma viagem a trabalho na Holanda, foi encontrá- ansiedade, não querer que as coisas aconteçam
la em Milão. Depois, Emidio desceu para a região muito rapidamente, ter uma credibilidade das
Sul, para visitar seus parentes. Logo ao chegar a duas partes. A pessoa tem que acreditar em você,
Sacco, as memórias foram reativadas. “Foi uma principalmente personagens como a Dorina, de
sensação incrível. Eu iria ficar lá três dias e senti quem preciso captar a essência.”
que tinha que fotografar tudo, se não, as imagens De Dorina fez poucas fotos – sete ou oito –, mas
iriam desaparecer.” os três dias de viagem renderam filmes e filmes
Como bons italianos, os moradores convidavam inteiros. E também a vontade de voltar com mais
Emidio para tomar vinho e comer queijo e salame frequência. Assim, há oito anos, Emidio criou o
em suas casas, e Emidio, 33 anos após deixar o projeto Luzes da Toscana, em que organiza um
local, ia, munido com sua câmera. Mas um dos workshop com alunos em viagem pela Itália.
momentos mais impressionantes foi quando voltou E foi em 2018 que teve a ideia de juntar esse
à casa em que nasceu. “Ela havia sido vendida material, produzido durante três décadas, no livro
para um homem que vivia nos Estados Unidos, Italia Mia!. Emidio define sua publicação mais
mas um amigo de Sacco tinha a chave e deixou recente como “uma viagem no tempo”. “É a minha
que eu entrasse”, recorda-se, com emoção. “A história ali, do menino que deixou a Itália e depois
casa estava intacta, parecia que eu tinha parado a reencontrou”, emociona-se. “A Itália é onde eu
no tempo.” Emidio impressionou-se com a relação nasci, mas o Brasil é onde eu cresci. Sempre digo,
de espaço e tempo ao perceber que o quintal do para mim, Itália e Brasil são uma pátria só.”
16 • Revista DANTECultural{CAPA}
Vincenzo Pastore /Acervo Instituto Moreira Salles
Vincenzo Pastore /Acervo Instituto Moreira Salles
Vendedores no Mercado dos
Caipiras (1910)
Venditori nel Mercado dos
Caipiras (1910)
difícil e cheia de incertezas levaram o fotógrafo Engraxates jogando bola
a alternar o ofício de retratista com as incursões de gude (1910)
Lustrascarpe che giocano a
constantes pelas áreas mais pobres da cidade.
biglie (1910)
Nelas, gostava de circular por entre os engraxates
e as quituteiras, misturando-se ao cotidiano de
outros imigrantes, aos caboclos vindos da roça,
Vincenzo Pastore /Acervo Instituto Moreira Salles
aos negros e demais malungos da miséria e do
ostracismo social, despercebidos nas calçadas ou
no trabalho humilde. Misturando-se, enfim, aos
desocupados e desvalidos”, escreveu.
Por muitos anos, as fotos feitas por Pastore
ficaram guardadas, até que em 1997 seu neto, O fotógrafo Vincenzo
Pastore fez ensaios
o pianista Flávio Varani, doou 137 cliques ao
cotidianos da São Paulo
Instituto Moreira Salles. É como Prado escreveu: do início do século XX
“Mais que um espetáculo, a arte do fotógrafo é Il fotografo Vincenzo
uma decisão empenhada e quase solidária aos Pastore fece servizi
fotografici sulla vita
outros imigrantes que, como ele, para cá vieram quotidiana della San Paolo
acalentando o sonho de fazer a América”. dell’inizio del XX secolo
18 • Revista DANTECultural MAIO 2020 • 19{CAPA}
Pioneira impedida Um tema sensível
De família italiana, Gioconda Rizzo inovou Francesca Nocivelli morou por 12 anos em Fortaleza e
como uma das primeiras mulheres a ter a escolheu ensinar fotografia para crianças e jovens de
autoria sobre suas fotos reconhecida uma comunidade, trabalho que também lhe rendeu o
livro Maravilha
Em uma época em que o tradicional eram
De Bréscia, na região da Lombardia, uma amiga. “Levei-a em pontos turísticos
retratos de pessoas de corpo inteiro, a jovem de Fortaleza e acabou funcionando”,
Francesca Nocivelli tinha 25 anos
Gioconda Rizzo, paulistana de origem quando veio ao Brasil pela primeira vez. lembra-se Francesca. A amiga, que queria Do livro Maravilha, de Francesca
italiana nascida em 1897, inovou com fotos Nocivelli, publicado em 2008 - a
Era 1988 quando seu então marido fora ser modelo, levou, então, o ensaio ao
obra recebeu o nome de uma
mais fechadas, enquadrando os ombros e chamado para trabalhar em Fortaleza, jornal Diário do Nordeste, mas, quando comunidade de Fortaleza, no
o rosto de seus fotografados. Mas ela quase em um projeto na área de agricultura. Ela o diretor viu as imagens, logo quis saber Ceará, e contém fotos de pratos e
não conseguiu se tornar fotógrafa. Isso porque ainda não era fotógrafa, mas, como se quem era a pessoa responsável por geladeiras de famílias do lugar
Dal libro Maravilha, di Francesca
começou aos 14 anos, sem que seu pai, interessava muito pela área – seu trabalho aqueles cliques. Dessa forma, Francesca
Nocivelli, pubblicato nel 2008
Michele Rizzo, que se apresentava como o Miss Universo Yolanda de conclusão do curso de arquitetura em começou a trabalhar no veículo. Mas, — l’opera prende il nome di una
uma universidade de Veneza foi sobre cerca de oito meses depois, o casal comunità di Fortaleza, nello stato di
primeiro fotógrafo italiano radicado em São Pereira retratada em
Ceará, e contiene immagini di piatti e
1933 por Gioconda fotografia –, aceitou fazer um book para resolveu ir morar na França. Animada frigoriferi delle famiglie del luogo
Paulo, soubesse. Quando descobriu, ele ficou Rizzo, que começou
contrariado. Com o tempo, acabou permitindo a fotografar aos 14
que a filha trabalhasse em seu estúdio — anos
Gioconda Rizzo
La Miss Universo Yolanda
porém, havia uma condição: Gioconda só Pereira ritratta nel 1933
poderia fotografar mulheres e crianças. Ela da Gioconda Rizzo, che
iniziò a fotografare a 14
chegou a abrir um estúdio próprio, o Photo anni
Femina, mas o espaço durou pouco tempo. Ao
Kimi Nii
descobrir que algumas de suas clientes eram
prostitutas francesas e polonesas, seu irmão
mais velho fez com que ela fechasse o espaço.
Ela, então, voltou a trabalhar no estúdio do
pai. Continuou inovando, ainda assim, ao
aprender novas técnicas de aplicação de
fotografias sobre porcelanas e objetos como
joias e enfeites. “Ela foi pioneira, quebrou
tabus ao trabalhar em uma profissão que
não contava com mulheres e em uma época
em que não era comum elas trabalharem”,
diz a neta de Gioconda, a escritora e arte-
educadora Silvana Salerno.
Seu trabalho fez tanto sucesso que ela
chegou a fotografar personalidades como
Zezé Leone, a primeira Miss Brasil, e Yolanda
Pereira, Miss Universo. Aos 81 anos, ganhou
uma mostra na Fotogaleria Fotótica, em São
Paulo, onde expôs seu importante trabalho. “A
mostra foi um sucesso, ela ficou muito feliz por
ter seu trabalho em destaque”, lembra Silvana. Gioconda Rizzo ao centro, a filha Wanda,
a neta Silvana e o bisneto Bruno
Gioconda morreu em meados dos anos 2000,
Gioconda Rizzo al centro, la figlia Wanda, la
Francesca Nocivelli
pouco antes de completar 107 anos. nipote Silvana e il pronipote Bruno
Francesca Nocivelli
20 • Revista DANTECultural MAIO 2020 • 21{CAPA}
Francesca Nocivelli
com a fotografia, Francesca resolveu A obra Maravilha traz cliques de pratos,
estudar e se profissionalizou. Ela e o famílias e geladeiras. “A geladeira é um
marido viveram na França por dez anos, item importante em qualquer casa. Além
período em que nasceu seu filho, até que de conservar alimentos, ela representa o
voltaram a Fortaleza. poder aquisitivo daqueles moradores”, diz
Nessa segunda temporada cearense, ela a profissional. “Em algumas casas, havia
conheceu um projeto social na comunidade apenas água na geladeira. É um retrato de
Maravilha, no bairro de Fátima. Como todo o contexto.”
fotógrafa, começou a ensinar a crianças e Um ano depois do lançamento, Francesca
jovens da favela a técnica da fotografia em deixou o Brasil, país que visita com
lata que usa uma câmera caseira, feita com frequência, mas do qual sente muita falta.
uma latinha. Assim, criou o Projeto Clica “Foi muito bom trabalhar na comunidade.
Maravilha, que rendeu exposições e livros Eu dava aula com poucos recursos, mas
com imagens feitas pelos alunos. era gostoso”, lembra-se a fotógrafa, que
Mas, em 2008, intrigada com o tema até hoje mantém contato com ex-alunos.
da fome, Francesca lançou um livro “Um deles se tornou psicólogo e usa a
OU ACESSE / O ACCEDI SU: com imagens que fez da comunidade. fotografia para desestressar. Acho ótimo.”
http://dante.pro/b5q4rsj
22 • Revista DANTECultural{PERFIL/PROFILO}
A relação do italiano Emmanuele Baldini, spalla da sem que eu descubra algumas joias escondidas. Acabamos de
Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp), com o tocar, na Osesp, a surpreendente ‘Sinfonia nº 7’ de Cláudio
violino começou como uma paixão arrebatadora, ainda na Santoro, e estou gravando na íntegra as obras para piano e
infância. “Eu comecei no piano. Voltava da escola e ficava violino dele. Também indico as obras de André Mehmari, um
horas improvisando. Mas, aos 6 anos, escutei o som de um gênio do nosso tempo!”, entusiasma-se.
violino na televisão e imediatamente pedi para trocar de Emmanuele não cogita parar de ensinar ou de estudar. Além
instrumento”, conta ele, que é filho de um casal de músicos de regente e diretor musical, ele publica vídeos educativos na
e professores, ambos pianistas. Hoje ele leva seu violino internet e mantém uma rotina puxada de exercícios técnicos.
em turnês por diversos países — foram, até aqui, cinco no “A vida é uma aprendizagem contínua. Na arte, então, esse
Japão, quatro nos Estados Unidos e uma na Austrália, além de discurso vale ainda mais. Não há limites para o ideal artístico
concertos em toda a Europa e na América do Sul. e, cada vez que parece que estamos chegando perto do topo
Nascido em Trieste, cidade costeira localizada perto da da montanha, novas subidas aparecem, com o topo cada vez
fronteira com a Eslovênia, Emmanuele estudou na Itália, Suíça mais longe. É uma montanha que não tem cume”, comenta.
e Alemanha e gravou, como violinista, mais de 20 discos. Com 15 mil fãs no Facebook, 11 mil seguidores no
Venceu vários concursos internacionais (conquistando seu Instagram e quase 6 mil inscritos em seu canal do YouTube,
primeiro prêmio aos 12 anos), foi spalla (o que significa ser além de protagonizar vídeos no canal oficial da Osesp,
o primeiro violino) em três orquestras italianas (Bolonha, Emmanuele compartilha sua rotina de turnês e apresentações
Milão e sua cidade natal) e atuou como regente na Argentina ao mesmo tempo em que oferece um conteúdo de qualidade
e no Uruguai. Entre os sobre música, ensinando desde
prêmios mais recentes está cuidados com o instrumento
o de melhor instrumentista “Comecei no piano. Voltava da a técnicas, como o vibrato.
da Associação Paulista dos escola e ficava horas improvisando. Ele ainda publicou covers
Críticos de Arte (APCA) em Mas, aos 6 anos, escutei o som de um inusitados de Metallica e Led
2017. violino na televisão e imediatamente Zeppelin com a Orquestra de
Mas foi no Brasil que ele pedi para trocar de instrumento”, Câmara de Valdivia (Chile), da
decidiu fixar residência em conta o spalla da Osesp qual é diretor musical desde
2005, ano em que recebeu 2017.
um convite especial de John “Iniziai con il pianoforte. Tornavo da scuola No entanto, sua intenção
Fernando Ruz
Neschling, o então diretor e passavo ore a improvvisare. Ma a 6 anni, não é popularizar a música
sentì il suono di un violino in TV e chiesi clássica. “Não é necessário. É
artístico e regente da Osesp.
immediatamente di cambiare strumento”,
Emmanuele mudou-se para racconta lo spalla dell’Orquestra Sinfônica necessário, sim, ser acessível
São Paulo e assumiu a posição do Estado de São Paulo (Osesp) a todos, sem distinções. Mas
UM ETERNO VIAJANTE,
de spalla — na hierarquia da nunca será um fenômeno de
orquestra, depois do maestro, massa.” Seu intuito é mesmo
é ele quem comanda. O spalla é responsável pela afinação da ajudar, principalmente os jovens: “Tento usar essa ferramenta
APRENDIZ E PROFESSOR orquestra antes da entrada do maestro.
“Eu me apaixonei pela Osesp, pelo país, pelas pessoas, e
enxerguei uma possibilidade real de construir algo”, conta
poderosa para isso, compartilhando um pouco das minhas
experiências, passando conselhos, respondendo perguntas,
mostrando um exercício que estou fazendo. De repente
Mesmo durante suas extensas turnês pelo mundo, o músico italiano radicado no o músico, que em 2008 também criou o “Quarteto Osesp”, surge a ideia de algum assunto que possa interessar e pronto!
Brasil Emmanuele Baldini nunca para de praticar e compartilhar conhecimento aperfeiçoando-se como regente. “Temos uma vida musical Ligo a câmera e está feito, sem edição nem nada. Não há
orquestral de um certo nível, mas não se pode dizer o mesmo planejamento ou qualidade técnica, mas uma simplicidade
em relação à música de câmara. A oferta é menor, ainda e uma familiaridade que, acredito, fazem com que me
Por Bárbara Monteiro
falta algum nível artístico. Meu sonho é uma presença muito considerem um amigo”.
mais expressiva da música de câmara em nosso país”, afirma Tudo isso para deixar um legado positivo. “Hoje, depois de
UN ETERNO VIAGGIATORE, APPRENDENTE E INSEGNANTE ele, referindo-se aos grupos menores de instrumentistas 15 anos, posso dizer que certamente a vida musical e artística
eruditos. Desde então, ele intensificou sua atividade didática do Brasil melhorou e, embora eu não saiba se tenho alguma
Anche durante i lunghissimi tour per il mondo, il musicista italiano radicatosi in Brasile
Emmanuele Baldini non smette mai di praticare e condividere le sue conoscenze e fez questão de explorar melhor o repertório brasileiro, que participação nisso, espero que meu trabalho de formiguinha
continua em grande parte desconhecido. “Não passa um mês tenha contribuído”, conclui.
Traduzione dell’articolo a pagina 69
24 • Revista DANTECultural MAIO 2020 • 25{CULTURA/CULTURA}
Por Luisa Destri e Marcella Chartier
REFEIÇÕES PÉS LONGE
PARTILHADAS DO CHÃO
PIEDI LONTANI DA TERRA / Traduzione dell’articolo a pagina 70
PASTI CONDIVISI / Traduzione dell’articolo a pagina 69
Reprodução
La Percussi faz muito mais do que apoiar nossos sentidos. Há indicações de rendimento,
quem deseja cozinhar: além de reunir receitas tempo de preparo e proveniência: a caponata, por
desenvolvidas e acumuladas ao longo de mais exemplo, é uma delícia siciliana; a carbonara tem
de trinta anos de carreira por Silvia Percussi, o o preparo descrito conforme tradição do Lácio.
site traz conteúdos que compõem uma espécie Trata-se de receitas verdadeiramente italianas, que
de mapa afetivo da chef, que está à frente da revelam a diversidade da gastronomia do país.
Vinheria Percussi e é responsável pela seção “Ao elaborar o site, eu tinha em mente todos os
Mesa Consciente da Dante Cultural. Em ensaios possíveis usuários, como alunos de gastronomia,
fotográficos e textos autorais, há recomendações donas de casa que cozinham, homens que gostam
relacionadas a viagens, design, arte e gastronomia; de cozinha e de cultura também. Pessoas de 18
a seção “Ingredientes” traz breves reflexões a a 80 anos”, afirma Percussi, que confessa seu
respeito de elementos como o sal e o queijo objetivo ao criar a página: evitar que o trabalho
parmesão. de sua carreira se perdesse, ficando confinado a
Mas se trata de um verdadeiro presente para seu computador, sem chegar ao público. Viva a
quem procura inspiração e conhecimento. partilha! (Luisa Destri)
Organizadas em “delizie”, “primo”, “secondo” e
“dolce”, as receitas instruem sobre a preparação http://www.lapercussi.com/
de pratos italianos e da culinária mundial, Por Silvia Percussi
ilustradas por imagens que convocam todos os
Um filme que encerra muitos filmes. Assim Oscar nem se deixa corromper pelas solicitações
pode ser descrito “O homem sem gravidade”, nem as vence heroicamente – soluções frequentes
produção italiana da Netflix dirigida por Marco quando se trata desse gênero cinematográfico. Sua
Bonfanti e estrelado por Elio Germano. Para saída é muito mais humilde do que sua habilidade
retratar a fantástica história de Oscar, um menino de super-herói poderia fazer prever, acenando
incapaz de, sozinho, manter os pés no chão, a para um tipo de aprendizado que raras vezes
trama conta diversas outras histórias: a da família comparece no cinema comercial.
que superprotege a criança considerada especial, Ao final, o filme surpreendentemente se revela
a do inocente que tenta resistir às tentações da uma delicada narrativa sobre como é possível
sociedade comercial, a do amor capaz de vencer encontrar o próprio caminho sem abrir mão do
as dificuldades da vida e do tempo. que se tem de mais único, preservando-se a si
Embora algumas vezes se tenha a impressão de mesmo apesar de tentações e adversidades. (Luisa
quebra narrativa justamente porque esse único Destri)
filme procura dar conta de múltiplas narrativas, o
longa sustenta a atenção e a simpatia do espectador O homem sem gravidade (L’uomo senza
– muito, talvez, pela força de encantamento gravità), direção de Marco Bonfanti,
Divulgação
107 minutos
do argumento: quem jamais foi fascinado pela Disponível para assinantes da plataforma
possibilidade de voar? O encaminhamento, além netflix.com
disso, aos poucos se revela longe do banal, já que
26 • Revista DANTECultural MAIO 2020 • 27{CULTURA}
REENCONTRO COM MACHADO
COMIDA AFETIVA RITROVANDO MACHADO / Traduzione dell’articolo a pagina 70
DA LIGÚRIA
Divulgação
Um dos principais livros da literatura brasileira, Os mais velhos talvez não o tenham conhecido,
Memórias póstumas de Brás Cubas é agora durante seus estudos, como o sagaz intérprete de
COMFORT FOOD DELLA LIGURIA/ Traduzione dell’articolo a pagina 70 relançado pela Antofágica – editora recém- nossas contradições sociais.
chegada ao mercado, cujo objetivo é reeditar Oferecer a possibilidade desse reencontro é
Logo na entrada, o bar, à direita, a mesa grandes clássicos. Publicado inicialmente em uma das prováveis intenções da nova edição,
comunitária no centro e a cozinha aberta logo à 1881, o romance apresenta, como mesmo o menos que, vistosa, em capa dura, é potencial objeto do
frente sugerem que o Lido é um restaurante para avisado dos leitores deve saber, as recordações de desejo para o amante dos livros. Não por acaso,
a partilha, o encontro – e, de fato, é. Um barco um defunto – um sujeito, digamos, reprovável, traz ilustrações de Candido Portinari, preparadas
branco suspenso no teto com a parte interna virada cuja narrativa não poderia ser, no entanto, mais em 1942 sob encomenda de uma sociedade
para baixo abriga a iluminação e dá a entender saborosa. que buscava justamente fomentar a bibliofilia.
que se trata de uma casa de sabores marítimos – A publicação é uma oportunidade para aqueles Há também notas esclarecendo termos datados
o que também é verdade, ainda que o cardápio que não puderam reconhecer em um primeiro e referências históricas e literárias, além de um Memórias póstumas de
enxuto traga várias opções de entradas e massas Brás Cubas,
encontro com o livro de Machado de Assis uma perfil do autor, preparado, a título de posfácio,
Machado de Assis,
sem a presença do mar. das mais brilhantes mentes brasileiras. Entre os por Rogério Fernandes dos Santos, um dos jovens Antofágica, 456 páginas,
A porção de manjubinha, camarão e lula mais jovens, a obrigatoriedade da leitura para o críticos machadianos. Um legado sem miséria. 69,90 reais
empanados e fritos (Fritto misto, R$ 46), saborosa vestibular muitas vezes participa dessa história. (Luisa Destri)
e bem servida, divide o menu de entradas, tão
cheio de opções quanto o de pratos principais,
com receitas exclusivas da região da Ligúria, de
onde vem o chef Roberto Rebaudengo. A farinata
(R$ 28), por exemplo, é uma massa assada feita de
farinha de grão-de-bico, água e sal, supermacia,
que pode vir à mesa com queijo (stracchino ou
ATENÇÃO, CARO LEITOR
gorgonzola). Se pura, o valor cai para R$ 22.
ATTENZIONE, CARO LETTORE / Traduzione dell’articolo a pagina 71
Os preços justos se estendem por quase todo O esforço de autoconhecimento determina a
Divulgação
A consciência de Zeno é não apenas um dos
o cardápio, e são várias as opções sem carne – mais aclamados romances da literatura italiana – estrutura do livro, que tem capítulos dedicados às
como o minestrone alla genovese, que sai por R$ mas também leitura das mais saborosas. Terceiro diferentes questões investigadas pelo analisando,
42, e o pansoti recheado com PANCs e ricota de romance de Italo Svevo, pseudônimo do triestino como o casamento, a relação com a amante, o
búfala, por R$ 52. Servem água da casa, tocam Ettore Schmitz, o livro teve o reconhecimento de trabalho. As questões que os organizam variam
música italiana e, a cada noite, um dos drinks grandes nomes da literatura, como o poeta italiano do patético ao hilariante: no capítulo dedicado ao
do menu sai por R$ 20, para a alegria dos mais Eugenio Montale e o romancista irlandês James pai, por exemplo, Zeno procura elucidar, a partir
animados – na noite em que estive lá, um grupo Joyce. Em primeira pessoa, a personagem que lhe da revisão de toda uma vida, uma bizarra situação
de italianos jovens divididos em duas mesinhas dá título esmiúça suas lembranças buscando se
ocorrida em seu leito de morte.
colocadas na calçada cumpria o propósito que tratar do que identifica como uma doença: o fato
Sarcástico e autocomplacente, o narrador exige
aparece no nome da casa – amici di amici. de durante muitos anos fumar cada cigarro como
leitores que o acompanhem com desconfiança,
Para quem quiser um pouco mais de privacidade, se fosse o último, sem, entretanto, conseguir de
traço em que reside uma das grandes qualidades
Divulgação
fato deixar o vício. A consciência de Zeno,
há mesas no andar de cima. De qualquer forma, do livro. Conhecendo suas relações por meio de
Publicado inicialmente em 1923, quando a Italo Svevo, tradução
não vá embora sem pedir o tiramisù (R$ 24), seus olhos, aos poucos vamos aprendendo a nos
psicanálise era ainda pouco difundida na Itália, de Federico Carotti,
levíssimo, doce na medida. (Marcella Chartier) distanciar de seu ponto de vista e a criar novas L&PM, 448 páginas,
o livro traz a marca da ciência então postulada
38,90 reais
por Freud. Zeno escreve por sugestão de seu hipóteses para os eventos narrados. Verdade
Lido Amici di Amici
Rua Fradique Coutinho, 282, Pinheiros analista, que, aliás, é quem publica e apresenta e mentira, intenções expressas e motivações
Tel. (11) 2384-9839 o livro. Abandonado por seu paciente, ele o faz veladas, realizações e afetos frustrados: na prosa
Horário de funcionamento: de terça a sexta, aparentemente límpida de Zeno, cabe ao leitor
por vingança, mas promete dividir os lucros com
das 17h à 0h. Sábado, das 13h às 23h.
o autor da autobiografia caso o tratamento seja identificar diferentes camadas e tirar as próprias
retomado. conclusões. (Luisa Destri)
28 • Revista DANTECultural MAIO 2020 • 29{CULTURA}
APENAS UM BONECO DE MADEIRA?
SOLO UN BURATTINO DI LEGNO? / Traduzione dell’articolo a pagina 71
Descobrir o que não se é: tarefa tão fundamental mesmo. O desenlace da autodescoberta se dá por
Divulgação
ao autoconhecimento quanto o esforço para meio da imagem: é numa página do livro que se
compreender os próprios contornos. A essa tarefa desdobra em outras quatro que o menino encontra
se dedica o protagonista de Pinóquio: o livro das as semelhanças e as diferenças mais capazes de
pequenas verdades, de Alexandre Rampazo. O caracterizá-lo. Paradoxalmente, Pinóquio está
personagem de Carlo Collodi (1826-1890), aqui longe do espelho.
recriado, confronta diversos seres da narrativa
Como sugere Nelson Cruz em texto que
original, como Gepeto, o Grilo Falante, a Fada
acompanha o volume, é como “conto visual” que
Azul – sempre imaginando como seria não ser um
o livro atinge o seu melhor. Belas e delicadas, as
boneco de madeira.
ilustrações permitem que o leitor caminhe por essa
Vendo-se diante de tantas e diversas figuras,
ele observa a própria imagem: “Ao olhar para o jornada de descoberta prescindindo das palavras.
espelho, pensou que, talvez, se ele fosse Gepeto, Perceber-se, sonhar, reconhecer parecenças e
Pinóquio: o livro das
seria bondoso, amável, paternal e justo”, conta legitimar singularidades são temas a trabalhar com pequenas verdades,
os pequenos a partir do livro. Em certo sentido, Alexandre Rampazo,
o narrador, em uma estrutura espelhada que se
Boitatá, 32 páginas,
repetirá ao longo de todo o livro. Reiterativo, o também o autor é o que pode ser: trata-se do 44 reais
texto assinala a persistência do esforço e a forte primeiro projeto autoral de Rampazo, premiado
inquietação com que Pinóquio olha para si ilustrador de livros infantis. (Luisa Destri)
30 • Revista DANTECultural{ENSAIO FOTOGRÁFICO/SERVIZIO FOTOGRAFICO}
Roberta Votto
Por Arthur Fujii Texto: Marcella Chartier Melkan
vem de uma família com
Traduzione dell’articolo a pagina 71 origens italianas do lado
materno, e libanesas do
lado paterno. Seus bisavós,
de ambos os lados, foram
imigrantes que vieram ao
Brasil na década de 1920
em busca de melhores
condições de trabalho.
“No Natal, nossa ceia é de
comida árabe. Mas no dia
a dia a culinária italiana
prevalece.”
Bruno Chenque
é de família grande, com laços fortes e almoços longos em volta da mesa da
cozinha. “Todo mundo dando pitaco sobre a vida de todo mundo. Minha
avó, quando já estava bem velhinha e com Alzheimer, desembestava a falar
italiano, como se alguém entendesse alguma coisa.” Ermínia Esperança
Chenque era filha de italianos. Bruno também tem origens alemãs.
32 • Revista DANTECultural MAIO 2020 • 33Giuliana Eliza Ricciardi de Luca é filha de pai napolitano, vindo da Itália depois da Segunda Guerra, e mãe carioca, negra. “Tenho o rosto fino, típico da família dele. Lábios carnudos e nariz largo são herança de mamãe.” Ela também destaca a cozinha como um lugar de vivências familiares marcantes. 34 • Revista DANTECultural MAIO 2020 • 35
Gessica
Torres
Rozante
vê em sua cor de pele,
estrutura do rosto e
altura heranças da
família paterna, de
origens italianas. “Mas
os cabelos, os lábios
e o corpo são da
família da minha mãe.”
Os avós maternos,
alagoanos, tinham
traços indígenas.
“Meu avô era do
rio, amava nadar e
sempre preparava
manjubinhas.” Desse
lado da família,
Gessica tem primos
e tios com traços
indígenas, afro-
brasileiros e brancos,
diversos também
nas religiões: há
cristãos católicos e
umbandistas.
Érika Beraldo Takahashi
não sabe por que motivos o avô materno veio da Itália: ele faleceu quando sua
mãe ainda era menina. Os avós paternos eram japoneses. Ela cresceu entre
familiares expansivos e festeiros (os primeiros) e reservados e regrados (os
orientais); entre conservas de pepino, nabo, arroz japonês, e caponatas, pizzas
feitas em casa. “Um mix culinário muito louco”, ri. “Meus olhos, apesar de
serem puxados, não são pequenos. Lembram mais os da minha mãe.”
36 • Revista DANTECultural MAIO 2020 • 37Bruno Geraldi
Insalatina di polpo, prato do Tappo Trattoria,
restaurante da seção Gastronomia
Insalatina di polpo, piatto del Tappo Trattoria,
ristorante di cui parliamo nella sezione
Gastronomia
COMIDA
CIBO
Gastronomia/40
Mesa consciente/44
Gastronomia/40
Tavola Consapevole/44
38 • Revista DANTECultural MAIO 2020 • 39{GASTRONOMIA/GASTRONOMIA}
Um império da gastronomia: é assim que muitas presente lá todos os dias. Entre esses chefs, dois
vezes é feita a referência às casas pertencentes ao ganharam fama: os italianos Rodolfo de Santis,
chef Benny Novak e seus sócios restauranteurs. E hoje dono de casas no bairro do Itaim Bibi (como
não à toa: Novak é hoje responsável pelo cardápio o Nino Cucina e a Cantina Peppino), e Antonio
de dezenas de estabelecimentos (a maioria, em Maiolica, atual chef do Antonietta Cucina.
parceria com a Cia. Tradicional de Comércio — Maiolica, que ficou no Tappo de 2017 a 2018,
grupo ao qual pertencem a pizzaria Bráz, o bar foi responsável pela recriação contemporânea
Pirajá, a Lanchonete da Cidade, entre outros) que mais famosa da casa, até hoje no menu: o crème O Tappo surgiu a
partir de um desejo
vão da culinária francesa à italiana, passando por brûlée de queijo pecorino. “Nós mantivemos no
simples do chef
hambúrgueres e pizzas; há restaurantes dos mais cardápio porque é uma coisa muito interessante: Benny Novak: o
sofisticados aos mais despojados, mas todos têm apesar de não ser clássico, é uma receita francesa de servir pratos da
com uma cara e um gosto italiano, que se pode gastronomia italiana
algo em comum: a visão de Benny como amante
que ele gosta de
da gastronomia tradicional. comer como entrada ou como prato de queijo”, comer. Na foto,
Dentre todas as casas, o Tappo Trattoria (que não explica Novak. “As inovações, então, têm a ver cozze alla tarantina
faz parte do grupo empresarial da Cia. Tradicional com ideias pessoais, pontuais, alguma referência Il Tappo è nato da un
semplice desiderio dello
de Comércio), localizado no badalado bairro dos vista em algum lugar... Elas acontecem não só na chef Benny Novak:
Jardins, está entre as mais antigas – e também as receita, mas muitas vezes na montagem do prato; servire piatti della
cucina italiana che gli
mais queridinhas, tanto para o chef como para seus você não precisa mudar a receita, mas muda a piacciono. Nella foto,
clientes. Foi inaugurado em 2007, quando Novak cara.” cozze alla tarantina
já era proprietário e chef do clássico francês Ici
Bistrô.
O motivo para abrir um restaurante italiano?
Simples, segundo ele. “O meu grande motivo para
abrir o Tappo foi um só: o prazer em comer comida
italiana. Ponto”, conta. “Surgiu a oportunidade de
abrir um ponto e, pensando no que fazer – um
outro bistrô? Uma hamburgueria? –, eu falei para
meu sócio: vamos fazer o que gostamos de comer.”
Pode parecer simples demais, mas a ideia de
um restaurante italiano com a comida que Benny
Novak gosta de comer significa um norte essencial
EM MEIO A UM IMPÉRIO
para o cardápio até hoje: o Tappo não se dedica a
nenhuma região específica da Itália, mas a pratos
clássicos. “Nestes doze anos, mudamos muito
pouco o menu, nós nos mantemos sempre com
GASTRONÔMICO, UM CLÁSSICO os pratos clássicos, com eventualmente uma ou
outra coisa contemporânea”, explica ele. “Minha
característica como chef é essa. Não sou um
O Tappo Trattoria é onde o chef paulistano Benny Novak serve pratos descomplicados criador, um chef autoral, e sim alguém que faz
de uma de suas culinárias favoritas, a italiana execuções de pratos clássicos. Meu grande prazer
é poder fazer um bolonhesa benfeito, um bom
Por Laura Folgueira Fotos: Bruno Geraldi carbonara, um brasato executado de maneira
original.”
IN MEZZO A UN IMPERO GASTRONOMICO, UN CLASSICO As poucas “invenções” que aparecem no menu
Il Tappo Trattoria è il luogo dove lo chef di San Paolo Benny Novak serve piatti semplici di do Tappo, interessantemente, costumam ser
una delle sue cucine preferite, quella italiana criadas por chefs que Novak leva para trabalhar a
Traduzione dell’articolo a pagina 72 seu lado e comandar a casa – já que ele não fica
40 • Revista DANTECultural MAIO 2020 • 41También puede leer